Tupiza e um cavalo

Lugares Improváveis

Tupiza fica no sul da Bolívia, fora das maiores rotas turísticas deste país andino. Fui lá parar por acaso, mas o seu vale verde e fértil, encaixado a quase 3.000 metros de altitude entre montanhas vermelhas e secas, convenceu-me a ficar um par de dias – e a montar um cavalo pela primeira vez na vida, para explorar os arredores.

Tupiza: uma Bolívia em ponto pequeno

Tupiza não está na lista dos locais a visitar na Bolívia – à exceção de alguns norte-americanos interessados e ver o local onde os bandidos Butch Cassidy e Sundance  Kid foram emboscados, a uma hora da cidade, poucos são os que fazem o desvio até aqui. Mas não há nada como encalhar em locais anónimos como este, que, de tão comuns, são a imagem do país em ponto pequeno.

Cheguei num fim de tarde, vinda da Argentina, a caminho de Potosí, mas demasiado tarde para seguir viagem. No autocarro partilhei o assento com uma avó de saias rodadas, uma neta e dois grandes sacos de batata. A estrada era de terra, e cada sacudidela libertava sobre os passageiros uma chuva de folhas de coca, vinda dos sacos mal fechados suspensos sobre as nossas cabeças. Soube-me bem parar naquele vale verde e fértil, encaixado entre montanhas avermelhadas, e não foi difícil decidir ficar no dia seguinte.

O mercado de Tupiza é o que se espera de um mercado da Bolívia:  vende-se de tudo um pouco, incluindo batatas de várias formas e feitios, e também grandes sacos de coca. Os chineses ainda não chegaram em força, com os seus plásticos baratos. Pelas ruas passam bonitas cholas de cara redonda e corada, saias rodadas como quebra-luzes de candeeiros, bochecha inchada pelas folhas de coca e umas trouxas coloridas e misteriosas amarradas no peito, que tanto podem conter um bebé como as compras do dia.

Entalada entre montes vermelhos que a erosão vai esculpindo, a vila é um conjunto homogéneo de casas geralmente baixas – com exceção da igreja e pouco mais – com telhados ondulados. Também os arredores têm a beleza agreste dos Andes, com os seus montes ressequidos por onde se espalham os catos.

Para mergulhar um pouco mais na natureza resolvi fazer um passeio a cavalo pela primeira vez na vida, influenciada por duas irlandesas entusiastas que viviam numa quinta na Irlanda, e partilhavam comigo um quartinho modesto e asseado na guest house. O dono dos cavalos garantiu-me um cavalo mansinho e calmo, que me levaria em segurança para fora da vila, natureza adentro, até à Garganta do Inca.

Com o cavalo a passo, dei-me conta que a perspetiva “do alto” até era interessante para as fotografias, e havia muito tempo para usufruir da paisagem. O caminho era muito bonito e selvagem, com a aridez apenas necessária para deixar crescer uns arbustos muito verdes e, sobretudo, muitos catos, de vários tipos.

Tudo correria na perfeição se o meu cavalo não quisesse correr atrás dos seus companheiros, lançados a galope pelas estouvadas das irlandesas, que montavam com todo o à-vontade; depois de aterrar em várias posições diferentes na sela do meu cavalo, acabei por ver os meus óculos de sol voarem-me da cara (nunca mais os encontrei), e era com grande felicidade que desmontava em cada lugar para apreciar os sítios escolhidos: a gigantesca lâmina de pedra da Puente del Diablo, as torres decoradas por catos floridos da Floresta de Pedra, os “falos” do Valle de los Machos e a pequena cascata seca na entrada do a Garganta do Inca.

O meu traseiro foi ficando dorido com o passar do tempo, apesar do cavalinho e eu já sermos quase amigos; ele esforçava-se por entender as minhas ordens; eu esforçava-me por me aguentar em cima dele quando largava a trote pelo meio dos arbustos, para alcançar os companheiros. No final, compreendi completamente a expressão “pernas de cavaleiro” enquanto caminhava até à guest house, depois de presentear o meu novo amigo com um par de cenouras compradas no mercado, para lhe agradecer a paciência. E sim, valeu a pena o passeio pelos arredores de Tupiza.

 


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