Camboja: encontro com a cidade perdida

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A cidade de Angkor esteve perdida na selva durante demasiado tempo: primeiro, ignorada pelo ocidente até à chegada dos franceses à Indochina; depois, demasiado perigosa para visitar, graças às minas espalhadas pelos Khmer Vermelhos. Agora é um dos locais mais visitados do sudeste asiático – mas conseguimos manter o mistério da descoberta se optarmos por uma visita a solo.

A sinfonia de pássaros exóticos camuflados nas árvores frondosas, era constantemente boicotada pelo ranger de milhões de asas de cigarras, também elas invisíveis, excitadas pelo calor quase insuportável que nem a sombra atenuava. Meia dúzia de raparigas saíam da letargia da sesta, carregando caixas térmicas com gelo já derretido e onde boiavam latas de cerveja, coca-cola e seven-up, “very cold, very cold”, como me demonstravam encostando o alumínio frio aos meus braços suados. Bebi com uma necessidade de esponja, espantei a moleza com um leque de sorrisos e só a beleza arquitetónica daqueles monumentos, encaixilhados no verde da selva, me fizeram pisar o asfalto peganhoso e enfrentar o chumbo derretido que caía do céu.

A primeira plataforma – o Terraço do Rei Leproso – com as lajes negras comidas pela humidade, tem paredes decoradas com dançarinas voluptuosas e figuras de reis e princesas, habilmente esculpidas na pedra mole. No ponto mais alto, uma estátua muito lisa representa um ser humano nu, sem sexo nem cabeça: pode ser Xiva, o deus hindu da Criação e da Destruição, ou Yasovarman, o fundador de Angkor que teria morrido de lepra. Na continuação lógica de muros cobertos de líquenes, com árvores a despontarem por detrás como se saíssem das entranhas da pedra, há outra plataforma que deve o seu nome aos elefantes estampados em relevo, num friso de muitos metros. Do cimo deste desmesurado terraço pregavam os reis-deuses aos súbditos reunidos em assembleias que, no auge do Império Khmer, acabavam sempre em grande pompa, com desfiles muito coloridos de infantaria e cavalaria. É impossível imaginar tanto aparato naquele cenário enterrado em plena selva, com os poucos figurantes do presente diluídos nas sombras, ou passando num silêncio de fantasmas, flutuando nas ondas do calor.

A cerca de duzentos metros dos terraços, nas traseiras, ergue-se o Baphuon, o terceiro e último monumento importante deste grupo. É uma pirâmide imponente, com o topo destruído e que representa o Monte Meru, centro simbólico do universo, “a casa dos deuses”, segundo os conceitos religiosos hindus. O Baphuon é um dos vários “templos de montanha” espalhados pela vastíssima área de Angkor, destinados a centralizar o culto ao rei-deus (devaraja) e através dos quais a sagrada personalidade do soberano era adorada, em altar próprio, como sendo a única e verdadeira essência do reino.

A decoração do pórtico e as figuras em alto-relevo que animam a longa cintura de pedra, valem a caminhada no descampado martirizado pelo sol, que acentua a humidade de piscinas que foram o deleite da corte e dos peregrinos, agora transformadas em pântanos onde pastam vacas cravadas no lodo. No regresso ao tapete acanhado do asfalto e à abençoada sombra onde deixara a motorizada de aluguer, fui intercetada por três miúdos que interromperam as suas brincadeiras para me mostrarem um estreito corredor, cuja entrada passa completamente despercebida. A passagem segue paralela aos muros principais e é um não mais acabar de esculturas duma perfeição a toda a prova; às dançarinas sensuais, figuras mitológicas e cobras de cinco, sete, nove ou onze cabeças, é difícil dar uma idade tão avançada – quase 800 anos – pois parecem ter sido esculpidas no dia anterior. Mas para aqueles miúdos, que me incitam com sorridentes “par ici, par ici”, o ex-líbris é um guerreiro ou um rei a quem chamam Buda e que tem uma bala cravada no coração. “Khmer Rouge…” , dizem, excitados, apontando o projéctil preso com cimento para que não escape à história.

Entre os séculos I e VI, grande parte do território cambojano pertencia ao reino de Funan, estrategicamente situado na rota comercial que ligava a Índia à China. Teve uma influência vital em todo o Sudeste asiático, devido a uma cultura que reunia hinduístas e budistas. Crê-se que invasores javaneses passaram a controlar grande parte do país, a partir do século VIII e é precisamente um descendente destas dinastias – Jayavarman II (802-850) – que inicia o chamado período de Angkor, que se prolongaria até ao século XIV. É o primeiro soberano khmer a receber o título de devaraja (rei-deus). Instala-se em quatro capitais diferentes, nas imediações do lago Tonlé Sap, mas só com a construção de um vasto e sofisticado sistema de irrigação, levado a cabo por Indravarman I (877-889), seu sobrinho e sucessor, é possível a cultura intensiva das terras circundantes e a consequente subsistência duma população numerosa, que vivia numa área relativamente pequena. As conquistas começariam com Yasovarman (889-910), que muda a capital para Angkor, o futuro centro de uma extensa possessão que se estenderia aos actuais Vietname, Laos e Tailândia. Mas as sucessivas guerras com birmaneses, vietnamitas e Cham, povo que dominava o centro-sul do Vietname, enfraqueceram o poder khmer e Angkor é conquistada e saqueada em 1177, deixando o império num caos.

Só aquele que é considerado um dos mais importantes reis khmer – Jayavarman VII (1181-1201) – consegue repôr a ordem e iniciar a construção de inúmeros monumentos. A ele se deve a edificação de Angkor Thom, uma cidade fortificada que chega a ter um milhão de habitantes (mais do que qualquer cidade europeia da época), protegida por uma muralha quadrada com doze quilómetros de extensão, oito metros de altura e rodeada por um fosso, largo de cem metros, onde abundavam crocodilos. O acesso era feito por entradas monumentais; as cinco portas de pedra, com vinte metros de altura, ainda ostentam o rigor e a qualidade dos artistas da época: os elefantes e as inúmeras caras de Avalokitesvara parecem ter sido petrificadas, e não esculpidas… Em frente a cada uma das portas, à esquerda e à direita, existiam cinquenta e quatro estátuas de deuses e outras tantas de demónios, segundo a inspiração nas histórias contidas na Agitação do Oceano de Leite. O relato do comerciante chinês Chou Ta-Kuan, que visitou a cidade em 1296, não deixa margem de dúvidas: “magnífica e excitante metrópole”.

Mas como há sempre um declínio nos grandes impérios, Angkor foi desfalecendo, ao mesmo tempo que abandonava a adesão ao hinduísmo para enveredar pelo budismo hinayana; até o uso do sânscrito foi trocado por uma língua sagrada. As sucessivas incursões tailandesas, que sabotavam o imprescindível sistema de irrigação, foram o golpe de misericórdia: Angkor é ocupada em meados do século XV, obrigando a corte a edificar uma nova capital nos arredores de Phnom Penh. Seguem-se quase quatro séculos de instabilidade, de confusões dinásticas e de guerras que envolviam tailandeses, vietnamitas, espanhóis e até portugueses!

A história mais recente

Em 1884, o Camboja torna-se uma colónia francesa à força e eis que Angkor, “a cidade perdida”, renasce no interesse dos europeus, sobretudo após a publicação do livro Le Tour du Monde, um relato das viagens do naturalista francês Henri Mouhot. Imediatamente se idealizaram programas de pesquisas, com o envolvimento de arqueólogos e filólogos sob a direcção da École Française d’Extrême Orient. No entanto, só em 1908 se deu início aos primeiros trabalhos no terreno: remover toda a vegetação nociva aos monumentos, reconstruir estruturas danificadas pela selva e pelo tempo e restaurar tudo o que fosse possível, tentando fazer reviver a grandeza original. Este enorme esforço foi interrompido no início dos anos 70 devido à guerra que, desta vez, envolvia vietnamitas do norte e do sul, americanos e uma nova facção, os Khmer Vermelhos, que tomariam o poder em abril de 1975 e que escreveriam com sangue e terror quatro anos de história…

A invasão do Camboja pelo Vietname, em janeiro de 1979, teve, pelo menos, a virtude de acabar oficialmente com um regime inqualificável. Mas os Khmer Vermelhos continuaram a actuar com a violência demente que lhes era característica, a partir de bases instaladas na selva e nas montanhas do norte. Previa-se o pior para a “cidade perdida”, mas os estragos não foram tantos como o previsto. E só no início de 1992, com a chegada dos primeiros vinte e dois mil funcionários das Nações Unidas, cuja tarefa principal era manter a paz e administrar as eleições livres, foi possível reabrir a área à visita de turistas estrangeiros.

Mesmo que a bala espetada no Buda do Terraço dos Elefantes seja o resultado da imaginação de quem andou por ali em restauros, e não a obra de um atirador exímio, é natural que cause espanto e reflexão a muitos dos visitantes, que só aguardavam tempos de paz verdadeira para se deliciarem com uma obra que já atingiu o estado de lenda. Do cimo do Phnom Bakhung, a Montanha de Idra, uma intrusa na monotonia plana da paisagem, há uma vista panorâmica sobre os limites de Angkor Thom, se a visibilidade não se turvar com inesperadas mudanças climatéricas; as chuvadas costumam ser violentas e prolongadas, verdadeiras cortinas líquidas. Até Angkor Wat, ali a dois passos, pode desaparecer engolido pela tempestade e só renascer com os últimos raios de sol que se escapem do manto rasgado das nuvens do poente. Brilhando no palco talhado na selva, suspenso nos efeitos especiais dos fumos da condensação, ultrapassa a categoria muito generalizada de ser “o mais inspirado e espetacular monumento jamais concebido pelo pensamento humano”, para entrar nos limites do imaginário, como uma nave de pedra vinda de outra galáxia, aqui ancorada para nosso eterno deleite.

Esta jóia da arquitectura foi construída durante o reinado de Suryavarman II (1112-1152), que o dedicou a Vixnu, deus com quem se identificava, para mais tarde aí ser sepultado. O abandono forçado de Angkor Thom, devido à invasão tailandesa, não significou a perda de Angkor Wat, imediatamente habitado por monges budistas que evitaram a pilhagem e os danos causados pela vegetação, tornando-o num dos mais importantes lugares de peregrinação do sudeste asiático. Presentemente, apenas algumas dezenas de monges vivem nos dois pagodes que existem dentro do complexo.

A primeira sensação é a de grandiosidade. Angkor Wat foi concebido para representar um microcosmos do mundo mítico, e o seu acesso faz-se por um longo passeio de pedras negras que atravessa o fosso retangular que cerca o monumento.  Após a primeira entrada, guardada por um Vixnu com oito braços, surge uma avenida com quase quinhentos metros de comprimento e dez de largura, ornamentada com parapeitos laterais representando nagas (cobras). Ao fundo, as silhuetas das três torres principais recortam-se no papel de lustro do céu e o fascínio aumenta a cada passo, até se tornar uma experiência impressionante. Há um labirinto de galerias em cada um dos três andares e escadarias íngremes que atingem o topo, o lugar ideal para o desfrute da grandiosidade do monumento e da sua relação com a selva. A visão rende-se à atração fatal do rendilhado da pedra, à volúpia das dançarinas de peitos redondos e à interminável parede com uma série extraordinária de baixos-relevos, que representam cenas épicas.

Orgulhosamente inalterado, tal e qual como quando foi descoberto pelos primeiros exploradores franceses, satisfazendo as insistências dos românticos da época que o desejavam original e misterioso, o Ta Prohn é um dos maiores edifícios do período de Angkor. No reinado de Jayavarman VII chegou a albergar mais de doze mil pessoas, das quais quase três mil e quinhentas eram monges e coristas que celebravam e participavam em todos os rituais religiosos. Presentemente é um local que exala vibrações enigmáticas e contraditórias: ultrapassa tanto o seu estado de solidão e de abandono ao poder da selva, que acaba por se tornar um monumento mais vivo do que qualquer outro. Num cenário digno das aventuras fantásticas de Indiana Jones, percorre-se corredores, galerias e passagens, muitas vezes obstruídas por desabamentos, árvores derrubadas e teias de raízes. Os templos ganham beleza e dimensão no enquadramento caprichoso da floresta, e nem o fino tapete de musgo e líquenes consegue ofuscar os magníficos pormenores de esculturas e frisos. Uma grande parte das paredes e dos tetos não resistiram à força implacável do crescimento de árvores gigantescas e com muitas centenas de anos, que rompem a pedra com a aflição de quem sufoca, verdadeiras torres erigidas à fecundidade vegetal, que derramam raízes tentaculares numa coreografia imprevisível. No acaso da exploração, é possível encontrar recantos incríveis com divindades a nascerem da negrura da pedra, intactas, apesar das derrocadas de enormes blocos que abriram brechas por onde se infiltram raios de luz. Se não fosse a sinfonia constante de pássaros, cigarras e grilos, o silêncio seria abissal, quase medonho, neste lugar de extremo exotismo, onde há a nítida sensação de podermos ficar presos para sempre nas poderosas garras da selva.

Ainda dentro do perímetro de Angkor Thom, precisamente no seu centro, ergue-se aquele que é, para a maior parte dos visitantes, o mais fabuloso e inquietante monumento de Angkor: o Bayon. A primeira impressão, quando visto de longe, é completamente oposta: parece uma ruína sem interesse, com torres talhadas na amálgama quase disforme e sem atractivos da pedra esverdeada. No entanto, quando se chega perto da entrada principal, os nossos olhos começam a distinguir algumas das 172 caras de Avalokitesvara, o rei-deus que se identificou com Buda, esculpidas nas quatro faces das torres. O efeito é surpreendente; se desviarmos o olhar por uns minutos elas voltam a desaparecer, como que absorvidas pela pedra, mas reaparecem num pestanejar, imponentes e com aqueles sorrisos enigmáticos, só usados por deuses e santos.

No terceiro andar consegue-se o contacto directo com a grandiosidade duma arquitetura sublime, imaginada por Jayavarman VII para venerar Xiva; só mais tarde, com a construção desta última plataforma, é que o Bayon se transformou em templo budista. Quando se percorrem as alas que contornam as torres, há diversos ângulos em que é possível juntar mais de meia dúzia de caras no nosso campo visual – inteiras ou de perfil – numa espécie de jogo fantasmagórico que muda constantemente.

Os traços do rei khmer são tipicamente cambojanos, até no sorriso, eternamente desenhado na pedra. O povo acolhedor e caloroso, de sorriso fácil, que aqui costumava vir nas noites de lua cheia venerar deuses e antepassados, é o melhor cartão de visita do país, que agora parece ter encontrado o rumo para a paz.  E Angkor não deverá ser, nunca mais, uma cidade perdida.


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