Kalash – uma cultura em vias de extinção

Coisas do Mundo

Os kalash vivem num recanto montanhoso do Paquistão, junto ao Afeganistão. São o último povo pagão hindo-europeu do mundo. Sitiados e em resistência contra a intolerância religiosa e o menosprezo dos governos, já só restam cerca de três mil…

Os irredutíveis kalash

A tradição oral conta que os kalash são descendentes de um general de Alexandre o Grande, Shalak Shah, originário de Syam, perto de Yarkand (um importante entreposto da Rota da Seda, não muito longe de Kashgar, na China), a quem Alexandre ofereceu o vale de Chitral como recompensa pela sua bravura. A sua língua parece ter, de acordo com especialistas, origens centro-asiáticas, o que confirma esta hipótese apesar da ausência de documentos escritos. As tradições são mantidas por via oral, os xamanes continuam os seus rituais e os bardos vão contando as histórias das personagens famosas, em canções que passam de pais para filhos.

Apesar de os restantes paquistaneses lhes chamarem kafirs, infiéis, a verdade é que o paganismo kalash – eles são o último povo pagão indo-europeu – é centrado na ideia de um deus criador, Khodai (a palavra persa para deus), com o qual comunicam através de outros deuses menores com funções similares às dos santos católicos. Deus ama a luz, daí as grandes fogueiras que acompanham todas as celebrações, como o Joshi, a festa da primavera. As linhas gerais da religião são o culto dos antepassados e a ideia de bem e de mal, de puro e de impuro, que se fazem acompanhar de uma série de regras e ritos destinados a preservar a pureza dos locais e das pessoas – o exemplo mais curioso é a bashali, a casa onde as mulheres com o período ou que acabaram de dar à luz se retiram durante algum tempo. Aparentemente, nada que possa chocar as três grandes religiões monoteístas.

Mas o espírito libertário kalash, que se manifesta na ausência de barba nos homens, e na roupa e comportamento das mulheres – que andam na rua, falam e cumprimentam os homens com apertos de mão, dão de mamar em público, casam com quem querem, divorciam-se quando lhes apetece e trabalham arduamente nos campos – as danças conjuntas e o álcool que se bebe, sobretudo durante festas e celebrações religiosas, confundem as cabeças mais estreitas de alguns muçulmanos. Os mullahs hesitam entre as promessas e os insultos. Os próprios muçulmanos do vale de Bumburet, geralmente em excelente coabitação com os vizinhos pagãos, são alvo destes fanáticos, que os incitam a não comer nem falar com os vizinhos kalash sob pena de “não serem bons muçulmanos”.

Estão cercados e a resistir à invasão, em terra que é sua desde há cerca de quatro mil anos. Já chegaram a dominar uma vasta região, que ia para além de Chitral e da fronteira com o Afeganistão, que fica a uma dezena de quilómetros daqui, e que era o território dos “kafirs vermelhos”, por oposição aos “kafirs negros” do Paquistão. E se neste momento rondam as três mil almas do lado paquistanês, do lado afegão desapareceram por completo, convertidos à força pelo emir de Kabul durante os séculos XIX e XX.

Hoje, os kalash vivem confinados a três vales – Bumburet, Rumbur e Birir – e às montanhas que os separam. Bumburet é um vale estreito e fechado num dos extremos, de vertentes arborizadas: podemos ver florestas de cedros que sobem quase até aos cumes cinzentos do Hindu Kush. Um rio estreito e pedregoso corre no meio dos campos, e a margem do lado oposto à estrada de terra, único acesso ao vale, quase não é habitada.

O casario das aldeias tem um aspecto escuro e fumarento. Como se anos de fogueiras tivessem crestado até o exterior das casas, construídas muito juntas ou encostadas umas às outras, muitas vezes apenas com uma estreita passagem entre si. É comum o terraço de uma casa ser o telhado da que fica logo abaixo, e o resultado é um encaixe tão perfeito que a aldeia parece feita de uma peça única, como uma espécie de fortaleza. No cimo fica geralmente o templo de Jestak, onde se desenrolam os cultos particulares dos kalash, de interiores vazios à exceção de grandes imagens humanas e de animais, sobretudo cavalos e cabras, desenhados a negro nas paredes.

Porta de um templo de Jestak

Os estradões de terra onde desfilam as aldeias são debruados a árvores, grandes amoreiras e nogueiras que protegem do sol e parecem servir de ponto de encontro para grupos de mulheres. Sempre com as suas habituais roupas de princesa, compostas por um longo vestido preto até aos pés apertado por um cinto colorido, golas e punhos bordados com cores vivas e uma espécie de coroa de búzios, botões e missangas poisada na cabeça e descendo pelas costas numa tira larga – o shushut.

Em Bumburet fui “descoberta” por um gupo de meninas. Eram lindas, de carinhas rosadas, cabelos entrançados e o shushut meio tombado na cabeça. Gabei-lhes a roupa, toquei-lhes nos punhos com bordados geométricos em tons de rosa, branco, vermelho, laranja, uma garridice que contratava com os vestidos negros rodados que, pude ver nessa altura, usavam sobre umas calças largas e pretas, com uma barra bordada no fundo. As meninas continuavam muito sérias a olhar para mim, mas sem arredar pé. Decidi pegar na máquina fotográfica: ou fugiam ou gostavam. Gostaram.

Em coro, cantaram e dançaram, algumas com trejeitos de pequenas estrelas, bateram palmas ao ritmo das músicas, cantilenas repetidas acompanhadas por gestos delicados de ombros e mãos. O pior foi a questão da reciprocidade: com os olhinhos claros virados para mim, pediram-me que cantasse uma canção do meu país. Tentei dizer que não sabia, mas até as pequeninas me pediam, com o dedito espetado, só uma, só uma… Tossi, limpei a garganta o melhor que pude, e atirei-lhes com a única canção da qual conheço a letra (acho eu): Menina estás à Janela. Foi um momento espantoso. Não pela qualidade do espectáculo, evidentemente, mas pelo prazer de as ver tão atentas, quase embevecidas, paradas, de olhar fixo como se estivessem a tentar perceber. Mais extraordinário ainda, foi o facto de baterem palmas no fim e mostrarem que tinham gostado…

O texto é feito de trechos adaptados do livro Onde os Rios têm Marés, onde conto a minha viagem pela estrada do Karakorum e a estadia entre os kalash. O ambiente arcaico dos vales onde se vive esta cultura com cerca de 4.000 anos sugeriu-me o registo fotográfico a preto e branco.


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tino Junho 17, 2014 às 14:55

É por artigos como este que tenho divulgado o teu trabalho e este teu site. A beleza e a sabedoria de um mundo, para mim desconhecido, que me entra na memória como um jardim.
Adoro o teu trabalho.
Beijo grande!

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Comedores de Paisagem Junho 18, 2014 às 18:23

Tino, muito obrigada! Aí ao longe não vês, mas corei…

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