Po Win Taung, as Mil Grutas de Buda

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As grutas de Po Win Taung ficam no norte de Myanmar (antiga Birmânia), fora do circuito turístico. Dizem que são mais de mil, e o seu recheio de pinturas e estátuas conta a história do budismo na região desde o século XIV.

Templos e grutas budistas

Myanmar é mesmo assim: um rosário de tesouros por descobrir, de norte a sul. Po Win Taung é um desses locais miraculosos, onde cerca de mil grutas resguardam cerca de dez mil estátuas de Buda, e um sem fim de pinturas datadas dos séculos XIV a XVIII cobrem as paredes de muitas delas. Há outros locais no país com grutas aproveitadas ou escavadas para funcionarem como templos budistas, mas estas são um mostruário da história da arte religiosa de Myanmar, apresentando uma panóplia de estilos que não se encontra em mais lado nenhum. E ainda por cima, quase sem turistas.

A descoberta faz-se a pé, na companhia dos muitos birmaneses que aqui vêm em peregrinação religiosa, em busca de ganhar méritos para vidas futuras. Sorridentes e descontraídos, não hesitam em chamar-nos para mostrar uma imagem maior escondida numa encosta da montanha, e não recusam uma foto de recordação. Desde há séculos que o local é visitado por fiéis budistas, mas a abertura ao turismo estrangeiro é bastante mais recente.

Considerado por especialistas como a maior concentração de estatuária budista e pinturas rupestres do sudeste asiático (juntamente com o local “gémeo” de Shwe Ba Taung, mesmo ao lado), o local é discreto e, à primeira vista, nada impressionante: umas encostas pouco arborizadas e secas de montanhas baixas, uma ou outra stupa pintada de branco, equilibrada sobre rochedos escuros, uma longa escadaria que sobe até às grutas. E aí sim, começa o deslumbramento: carreiros labirínticos desdobram-se monte acima, entre arbustos e rochedos, terminando invariavelmente junto a um buraco escuro.

Espreitamos, entramos, descobrimos. Filas de estátuas brancas em altares, Budas escurecidos pelo tempo, alinhados junto às paredes, tetos cobertos de pinturas em tons de vermelho e azul, uma imagem longa, deitada, que ocupa toda uma gruta, árvores desenhadas num só risco, figuras celestiais e mandalas cobrem muitos tetos e paredes. Em algumas grutas os olhos demoram a adaptar-se à escuridão; noutras há mais de um portal que deixa entrar feixes de luz estratégicos. São cerca de três séculos de arte sacra budista que desfilam diante dos nossos olhos a cada mergulho na

penumbra. Escolhemos ao acaso, entrando em grutas com fachadas trabalhadas como igrejas, outras apenas buracos inacabados na rocha escura. A cada saída para o sol brutal de janeiro, tomamos contacto com a realidade: peregrinos de visita, pelos carreiros ou dentro das grutas, denunciados pelos chinelos à porta; grupos de macacos à espera de um petisco na sombra; miúdas tímidas com cestos de bananas, para vender a quem quiser alimentar os macacos.

Em Shwe Ba Taung a animação é menor, mas mais concentrada. Aqui estamos numa pequena Lalibela ao estilo birmanês: um grupo de templos escavados na rocha, as fachadas elaboradas e pintadas, ornamentadas com relevos e estátuas, formando ruelas estreitas. As decorações são ao gosto popular. Uma das frontarias exibe um elefante branco, outra tem dois homens em tamanho natural a tentar arrancar a roupa a um terceiro. Todas as grutas aqui têm sinais de visitas piedosas, sobretudo flores e incenso, e nota-se que as pinturas externas são regularmente reforçadas com tons outonais, uma paleta variada que contrasta com a cor pardacenta das rochas onde foram esculpidas.

Do alto de um dos rochedos escavados em forma de templo avistamos todas as  ruelas do pequeno complexo, e mais além, a paisagem montanhosa em redor. O nome Po Win Taung significa, em tradução livre, Monte da Meditação Solitária. O silêncio e o isolamento já não é o mesmo desde que a estreita estrada de asfalto tornou o acesso mais fácil, mas  este fabuloso local continua bem longe do fluxo de turistas que cada vez mais procuram Myanmar.    


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