Cão medo no deserto de Atacama

Lugares Improváveis

S. Pedro de Atacama, no Chile, não é só um oásis no deserto mais seco do mundo e centro da cultura atacamense; a pequena e pitoresca aldeia tornou-se também um ponto de passagem obrigatório para turistas independentes.

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Um susto no deserto de Atacama

Em S. Pedro de Atacama, a oferta de restaurantes e hotéis é imensa para uma pequena aldeia, e muito variada. Os preços atiram a matar aos mochileiros endinheirados que por ali param e inúmeras agências propõem tours pelas redondezas, dos géisers de El Tatio ao Vale da Lua, e outros locais de fabulosas paisagens que o deserto de Atacama oferece.

Para reanimar o budget, decidi explorar a região de bicicleta. Inquiri na pensão onde estava, e havia três disponíveis; reservei uma para o dia seguinte às seis da manhã, e paguei adiantado, depois de me prevenir com farnel e água para uma incursão no quentíssimo deserto.

De manhã, não havia rasto da bicicleta no pátio. Espreitei pelas portas abertas, revistei muros do pátio e acabei por bater à porta do patrão da pensão: mil desculpas, a empregada tinha ido de bicicleta para casa, levando a última. Fiquei furiosa mas não desmobilizei, decidida a aproveitar as horas mais frescas do dia, uma sande apetitosa e uma grande garrafa de água ainda fria a pesar-me na mochila, à espera de um momento de pausa num local de paisagem gourmet, que estaria à minha espera algures.

Parti a pé. Sem veleidades de alcançar o Vale da Lua, que ficava a mais de trinta quilómetros, entendi que ao menos podia subir aos morros mais próximos, talvez visitar as ruínas da Pucará (fortaleza) de Quitor, numa encosta visível da aldeia. A frustração deu-me asas, e pouco depois estava no cimo de uma das colinas estéreis com vista sobre a mancha verde do oásis de San Pedro, que começa de forma abrupta no meio de um chão que parece calcinado. Fui subindo e descendo, com os olhos numa cruz que encimava um dos montes mais altos, achando que era um bom ponto para parar e comer, antecipando vistas sobre uma paisagem fabulosa e colorida, de cabeços amarelos, cor de laranja e cinzentos, com formas esculpidas pelo tempo.

A certa altura avistei Quitor e para lá me dirigi, mas verifiquei que a bilheteira, lá no fundo do vale, ainda estava fechada. Segui caminho, em direção às ruínas arredondadas que são o que resta desta fortaleza pré-incaica, e acabei por alcançar o carreiro serpenteante que permite aos visitantes subir até ao cimo do monte e à cruz. Perfeito.

Inspirei, olhando a gloriosa paisagem, antes de atacar a subida. Atrás de mim ouvi um rosnar. Virei-me, e no lanço de caminho logo acima estava uma espécie de Lobo da Alsácia tão eriçado que mais parecia um pequeno urso. Parado, olhava para mim e rosnava, arreganhando os dentes todos. Baixando a cabeça em posição de ataque e com os olhos cheios de raiva, iniciou a descida na minha direção, sempre a rosnar, estacando para arreganhar mais os dentes, talvez antecipando um petisco.

Adoro bicharada, gatinhos, passarinhos, lagartinhos, e outros seres a quem sabe bem colar um “inho” no fim do nome. Mas não era este o caso: pouco a pouco, a besta estava a um metro de mim e eu congelei de medo. Ainda tentei bater com a mão na perna devagar, assobiar baixinho num convite ao carinho, mas o monstro estacou de novo e renovou o rosnar, mostrando os dentes o mais que podia. Pela minha cabeça passaram quilómetros de documentários com ensinamentos preciosos sobre como lidar com animais selvagens, onde consegui destacar uma fórmula: não olhar nos olhos, coisa considerada como desafio e sinónimo de agressão. Assim fiz. Estoicamente mirei a paisagem enquanto a fera se aproximou de mim, sempre a rugir. Senti-o chegar perto da minha mão direita, colada ao corpo, cheirar, e mantive-me imóvel. Senti-o passar por trás de mim, e nem a ideia de uma mordidela à traição me fez mover.

Quando tive coragem para olhar, o animal já estava a uns metros de mim e continuava a descer, sempre com paragens ameaçadoras e exibições de caninos. Depois trotou carreiro abaixo em direção à bilheteira e desapareceu da minha vista. Só aí me perguntei se o bicho não estaria com mais medo do que eu, talvez por uma vida de pedradas e pontapés. O que é certo, é que do cimo do monte o deserto estava mais lindo que nunca, e a sande de abacate e tomate que levava foi a melhor que comi na minha vida.

 


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olga Junho 21, 2015 às 16:11

Como sempre acompanhando o “teu” relato,senti-o “meu” tambem…é delicioso ,como de repente senti medo tb lol
Bjs amiga

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Comedores de Paisagem Junho 21, 2015 às 20:38

Ahahaha! Boa! Missão cumprida! :)

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Manuela Mateus Junho 30, 2015 às 13:43

Gostei. Bjs

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Comedores de Paisagem Junho 30, 2015 às 18:28

Eu também, apesar de tudo 😉 …

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