Tozeur e Douz – nas margens do deserto

Destinos

No sul da Tunísia, há duas pequenas cidades que terminam junto à linha de areia, no começo do deserto do Sara. E se as dunas mais próximas começam por ser pouco impressionantes, o mesmo não se pode dizer dos luxuriantes oásis que fazem parte das povoações.

Tozeur e Douz: aqui começa o deserto na Tunísia

Tozeur tem um pequeno “centro histórico” ou medina, feita com casinhas de tijolos de adobe encaixadas umas nas outras, formando um labirinto de túneis e vielas. Um museu mostra alguns aspetos da vida na Tunísia – nada que não se encontre cá fora, antiguidades ou imitações. Nas ruas, circula parado o ar quente e seco do deserto, as mulheres de vestido preto com barra vermelha, os velhotes calmos, estrategicamente distribuídos pelas sombras, de roupa branca e bigodes veneráveis, os dromedários que regressam a casa ao fim do dia, depois de um dia de trabalho turístico.

Os oásis estão mesmo ali, pequenos terrenos que formam uma mancha verde contínua, que envolve a povoação e só termina nas margens do deserto. Pertencem a várias famílias e fornecem-lhes (quase) tudo o que precisam para comer; o resto vem em carroças puxadas por burros até às bancas de legumes, para ser vendido. Há um pouco de tudo: verduras, cenouras, romãs, tâmaras… e em Tozeur conseguem mesmo um pequeno milagre em forma de banana, pequena, mas muito saborosa. Apesar da “invasão” do turismo, a vida continua a girar muito à volta da agricultura. Os conhecimentos mediterrânicos sobre rega por canais mantiveram-se até aos dias de hoje, mas foi sobretudo nos anos 90 que alguns projetos de irrigação destinados a fixar os nómadas resultaram num forte desenvolvimento da agricultura. Neste momento os lençóis friáticos já estão a ser explorados ao máximo, e há mesmo um – pasme-se! – campo de golfe, cujo projeto articulava a irrigação com as águas residuais dos hotéis para turistas, que também surgiram nos anos 90…

Para ir de Tozeur a Douz o caminho mais curto (125 km) atravessa o Chott el Jerid, um grande lago (chott) de água salgada, que só é líquido durante algum tempo, no inverno; durante a maior parte do ano é uma folha em branco quase incandescente, que termina numas montanhas secas e enfumaçadas – uma espantosa e desolada paisagem, para onde quer que se olhe, onde as miragens nascem do solo a cada passo.

Douz é a verdadeira povoação beduína do sul da Tunísia, e uma porta aberta sobre o deserto, que começa suavemente com uma ondulação de areia que lembra o mar, manso e liso de manhã, ganhando relevo com a luz do fim da tarde. O Festival do Sara realiza-se todos os anos no local onde as tribos nómadas beduínas vinham celebrar casamentos. Duas stations de dromadaires (terminais de dromedários) oferecem passeios aos turistas apressados, que chegam de autocarro num tudo-incluído que abrange meia hora a cambalear sobre uma bossa, vestido de beduíno de pacotilha: cachabia às riscas e turbante colorido na cabeça. Ao fundo cresce o deserto “grande, monótono, embalador”, nas palavras de Isabelle Eberhardt, uma imensidão de que se tem melhor perspetiva num um ultra-leve de aluguer – e também isso já é oferecido aos turistas.

Para chegar ao centro de Douz é preciso atravessar um dos maiores palmeirais da Tunísia, com mais de 500.000 árvores. Aqui começa a vida real. Na povoação, a fusão de cheiros e cores remetem para o passado ainda não muito longínquo, em que pessoas e animais partilhavam os mesmos espaços. O mercado de quinta-feira e o regresso dos dromedários a casa, ao fim do dia, fazem lembrar os acampamentos e as caravanas que passavam aqui a caminho de Ghadamès, na Líbia, vindas da África Subsariana com carregamentos de ouro, tecidos, e outras preciosidades.

Também aqui há um museu, mas dedicado aos povos sarianos, e também aqui os pequenos quintais que antecedem a areia produzem tomates, romãs, laranjas, batatas, cebolas… Tudo isto à sombra das palmeiras que são a grande riqueza do deserto: as tâmaras. Aqui está a base de tudo, e mesmo os que fazem “um pezinho” como guias no Sara durante a época turística, gostam de ter esta garantia de autossuficiência nómada. É isto que vale, o resto são acrescentos que permitem dar um pouco mais de conforto à família.

Tudo se compra avulso (arroz, cigarros, folhas de brik), e quando nos afastamos das ruas principais somos muitas vezes convidados para entrar nas casas. Os nossos “erros” de vestuário ou comportamento são considerados extravagâncias de gauri (estrangeiro), e não são levados a sério. A hospitalidade sobrepõe-se completamente à intolerância – e ninguém fica à espera pagamento, como em outros países do Magrebe. O deserto é exigente e molda os carateres nestas pequenas cidades marginais, com um pé no oásis e outro na areia.


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